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Oportunidade para o Desconhecido


A urbanista fala sobre o que as favelas do Rio podem ensinar às cidades globais, quando comunidades se tornam marcas, e o valor da informalidade.

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Difamadas pelas elites locais, problematizadas pelo Estado e vistas mundialmente como zonas de exceção inseridas em uma cultura de violência e pobreza, as favelas do Rio de Janeiro, assentamentos informais espalhados pela cidade, raramente são representadas como algo diferente de um exemplo de alerta para o futuro das cidades. No entanto, a aparente mística da cultura popular das favelas, a adaptação persistente de sua estética por marcas globais, sem mencionar a resistência das comunidades por mais de um século, apontam para uma história mais complexa.

Existe alguma ligação entre a “favelização”, como a empreendedora em design Adriana Kertzer costuma chamar o fenômeno, e a vida daqueles que vivem nas muitas favelas do Brasil? Em busca de respostas, descobri a organização Comunidades Catalisadoras e comecei a me corresponder com sua diretora executiva, Theresa Williamson.

Theresa é uma urbanista com dupla cidadania, brasileira e britânica, que cresceu em Washington, DC, e atualmente mora no Rio. Ela passou os últimos quinze anos trabalhando com moradores de favelas através da ComCat. A organização investiga o funcionamento das favelas, incluindo a forma como se sustentam essas comunidades chamadas “de moradia informal” e trabalha em defesa da plena participação dos moradores das favelas na vida da cidade. A missão da ComCat tornou-se ainda mais importante agora que o Rio de Janeiro se prepara para sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Os preparativos forçaram milhares de moradores das favelas a deixarem suas casas, e o país como um todo se encontra em meio a uma crise política, em grande parte impulsionada por acordos corruptos em setores decisivos da indústria petrolífera e da construção civil.

Theresa revela que as favelas apresentam diversas possibilidades para uma cidade mais criativa e justa e essas possibilidades derivam principalmente da sua “informalidade”: a partir de moradias construídas e comunidades organizadas, nem tanto “fora” do Estado e mais por conta da negligência do Estado. De acordo com a ComCat, as favelas apresentam uma solução autogestionada para moradia cara em uma cidade, onde trabalhadores rurais sem terra, jovens sem educação formal e ex-escravos não tiveram outra opção ao procurar trabalho e abrigo.

Entrevistei a Theresa por Skype a respeito da ressignificação das favelas no imaginário global, revendo o problema da moradia a preços acessíveis e o dinamismo de uma arquitetura com base na necessidade.

Ann Deslandes por Guernica

Guernica: Conte-me um pouco sobre a sua história. Onde você foi criada? Qual foi a primeira vez em que ouviu falar ou teve contato com favelas?

Theresa Williamson: Sou de origem brasileira–minha mãe é brasileira e meu pai é inglês. Morei no Rio até os seis anos e depois nós mudamos para Washington, DC. Visitávamos o Brasil a cada dois anos quando estávamos de férias. Minha mãe era de uma família que venceu a pobreza, graças ao seu acesso a uma boa educação, por isso eu tinha muita consciência que a desigualdade no Brasil era uma barreira para o desenvolvimento. Eu cresci sabendo que existiam as favelas e era consciente de que existe duas realidades no Rio: o lado projetado para os turistas, com as praias, o Cristo Redentor e o estádio do Maracanã. A cidade é moldada em torno das áreas turísticas. O Reveillon na praia, o Carnaval, o samba e as diversas características geográficas da cidade: das praias à maior floresta urbana do mundo. E havia o outro lado que é normalmente mostrado na mídia internacional: deslizamentos de terra, incursões policiais em favelas, altas taxas de desemprego, Cidade de Deus, a Chacina da Candelária em 1993, os ônibus incendiados por traficantes de drogas. Por isso, quando as pessoas falam do Rio, pensam nesses dois extremos. E quando pensam nessas imagens negativas, elas são associadas às favelas.

Guernica: E quando você tomou maior consciência das favelas ao ponto de se tornar o foco do seu trabalho?

Theresa Williamson: Em 2000, eu estava cursando meu PhD em planejamento urbano na Universidade da Pensilvânia e retornei ao Rio para começar as visitas às favelas e definir o meu tema de pesquisa. Entrei sabendo dos estereótipos típicos mas saí inspirada. O que eu encontrei foram comunidades que trabalhavam muito e que tinham uma organização própria para gerenciar e responder a todos os tipos de desafios locais, desde problemas de saneamento, habitação, programas com creches, pós-escolares, escolinhas de futebol, higiene dental, cooperativas. Qualquer desafio social ou ambiental que você possa imaginar existem comunidades que estão efetivamente enfrentando-os. Depois disso, tive a ideia de criar uma organização que apoiasse as favelas, ajudando nesse tipo de trabalho que as comunidades realizavam; uma organização que apoiasse esses projetos locais, reforçando o patrimônio da comunidade e dando visibilidade a seus esforços e às vozes das favelas. Quando comentei com meu orientador de doutorado a respeito, ele disse: “Por que não começar a organização e escrever a sua tese sobre isso?”. Foi então que eu tive esta incrível oportunidade de criar a Comunidades Catalisadoras.

Algumas pessoas da elite local acreditam que as favelas são, por natureza, ilegais e, portanto, seus moradores são criminosos por natureza.

Guernica: Qual é a história que a Comunidades Catalisadoras conta sobre as favelas no Brasil e qual é a diferença em relação às histórias que estamos acostumados a ouvir?

Theresa Williamson: Eu não acho que em algum momento já foi contada realmente uma história completa sobre as favelas. Há apenas um percepção limitada e comum, de que as favelas são violentas, ou marginalizadas, ou que nunca deveriam ter existido, ou que as favelas existem por uma falta de políticas públicas e que por consequência deveriam ser extintas. Particularmente, algumas pessoas da elite local acreditam que as favelas são, por natureza, ilegais e, portanto, seus moradores são também criminosos, por natureza, pelo fato de viverem ali.

Queremos fazer com que as pessoas pensem sobre os contextos que produziram essas comunidades. Se considerarmos a história, podemos dizer: “Quem gostaria de viver marginalizado pela sociedade? Ninguém!”. As favelas existem por consequência da história. Queremos analisar como e por que as comunidades foram fundadas–por exemplo como resultado da escravidão e da falta de acesso à moradia a preços acessíveis–e analisar as políticas públicas que as afetam hoje em dia. Por que existem elementos criminosos lá? Não há nada intrínseco a elas que gere a criminalidade. O fato é que o Estado as tem negligenciado, deixando-as como alvos fáceis para o crime organizado; os cidadãos de favelas são tratados como criminosos e, por isso, vivem inúmeros obstáculos para acessar emprego e alguns se voltam para o crime organizado; e tínhamos uma economia estagnada no Rio durante os últimos quarenta anos e agora nos encontramos lá novamente. Nós estamos mudando a narrativa dessa história ao investigar os diferentes estigmas e preconceitos, colocando ênfase sobre eles, pensando neles, criticando-os através de canais como o RioOnWatch, nosso canal de reportagens comunitárias. Temos vários integrantes e colaboradores que nos ajudam a pensar sobre essas diferentes questões. Por isso, quando um arquiteto se junta a nós, examinamos as características arquitetônicas das favelas. Quando os alunos de pós-graduação em política habitacional começam a participar do grupo, elas são avaliadas em termos de habitação a preços acessíveis. E assim por diante.

Guernica: Você pode descrever alguns dos insights sobre as favelas que essas perspectivas têm ajudado a oferecer?

Theresa Williamson: As favelas são comunidades que foram construídas sem regulamentação, em resposta à falta de habitação a preços acessíveis. Locais onde as pessoas construíram suas próprias casas. Em cada tijolo, cada telha, há uma história embutida que você não tem em outros bairros e que, muitas vezes, não entendemos se não estamos inseridos nelas. As favelas evoluiram a partir das oportunidades em torno de cada uma e do acesso à cidade, e com base na sua história, seus líderes e sua geografia. Então, no final, temos essa variedade incrível de comunidades. Mas se agruparmos todas elas, causaremos um prejuízo enorme, porque, por natureza, são todas diferentes.

Não estamos tentando idealizá-las, mas, como organização, focamos nos atributos das favelas e buscamos destacar as qualidades urbanísticas dessas comunidades: são voltadas ao pedestre e respeitam as crianças, há um alto nível de solidariedade, pelo menos, maior do que em outros bairros do Rio. A nossa abordagem é baseada nas qualidades para o seu desenvolvimento. Enquanto essas comunidades forem vistas como tendo nenhum valor, ou como lugares que não deveriam existir, ou ainda lugares temporários, não será possível estabelecer políticas que sejam realmente produtivas, e é isso que temos visto, pois apesar de todos os investimentos dos últimos anos, não temos visto investimentos produtivos do governo. Atualmente, há uma política habitacional que tira as pessoas das favelas, e os leva para longe de seus empregos para apartamentos de baixa qualidade, e há ainda a polícia pacificadora instalada para “pacificar” o tráfico de drogas nas favelas, mas que acaba por intimidar, torturar e matar moradores inocentes. A verdade é que, na média, as favelas são melhores do que as casas populares produzidas hoje no Rio de Janeiro e estão sendo prejudicadas em seu desenvolvimento por conta desse policiamento. Se não vermos as qualidades, não podemos planejar de forma a fortalecer e desenvolver essas qualidades. Acabamos no maior desserviço quando desmantelamos e perdemos qualidades das comunidades através de políticas cegas fundamentadas no estigma.

Guernica: Você pode falar um pouco mais sobre a ideia das favelas terem uma “história embutida”? Como isso se manifesta?

Theresa Williamson: Essa ideia de que favelas são zonas pobres e lugares temporários implica dizer que não há nenhuma história ou memória. Mas nas favelas, quando falamos com as pessoas sobre suas comunidades, vemos que não podíamos estar mais longe da verdade. Publicamos vários artigos recentemente que falam sobre como a memória é preservada nas favelas através das conversas, do funk e dos sentimentos, tão diferente da forma como os museus retratam a memória ou como formalmente pensamos na memória.

Implicar que favelas são “temporárias”–isso faz parte de fazer com que as pessoas se sintam precárias, como se suas casas não tivessem; implicar que as pessoas não têm valor e não têm raízes, quando, na verdade, as raízes são profundas. Muito mais profundas do que as minhas! Eu estou sempre viajando e mudando. Muitos de nós somos assim. Nós somos os temporários, nesse sentido.

Você pode alegar que foi um erro de política pública permitir que as favelas se começassem a se desenvolver. Mas agora o erro é demoli-las e fingir que elas não existem.

Guernica: Muitas vezes, é projetado que até 2050, 70 por cento da população mundial estará vivendo em áreas urbanas, e que isso irá gerar um grande aumento no número de pessoas que vivem em assentamentos informais. Muitos urbanistas, geógrafos e sociólogos estão debatendo as implicações dessa aceleração urbana global. Como isso tem relação com o trabalho da ComCat?

Theresa Williamson: Favelas no Rio já existem há mais de cem anos e o governo as ignorou, as negligenciou, permitindo que elas crescessem e se desenvolvessem. Diferente do que aconteceu no hemisfério Norte, nos países ricos, onde no início da urbanização das cidades as favelas foram destruídas rapidamente e alternativas foram criadas. Elas se tornaram parte essencial do que faz o Rio, o Rio. Portanto, o Rio é realmente um bom exemplo para analisar o que acontece quando assentamentos informais são autorizados a se desenvolver, seja para melhor ou pior. Não estou colocando qualquer julgamento de valor se a ação inicial do governo foi boa ou ruim ao longo prazo.

Você pode alegar que foi um erro de política pública permitir que as favelas começassem a se desenvolver. Mas agora o erro é demoli-las e fingir que elas não existem, porque temos comunidades estabelecidas, cada uma com a sua história, e pessoas que construíram e investiram muito–não apenas financeiramente, mas pessoalmente, emocionalmente e fisicamente–nessas comunidades. Ao perguntar as pessoas sobre o futuro ideal, algumas vão dizer: “Quero sair daqui, me inscreva no Minha Casa Minha Vida!” e ao mesmo tempo terá pessoas em outras comunidades negando até grandes indenizações, porque amam suas comunidades. Pergunte a elas o que precisam! Perguntar também empodera as pessoas a pensar sobre o que falta, e ter consciência de que têm o direito de exigir ou buscar seus direitos.

Ao invés de negar que o mundo está se urbanizando através de assentamentos informais ou tentar excluí-los, a lição que aprendemos no Rio com a nossa história é: se você quiser desenvolver uma solução para a questão da moradia antes dela aparecer, beleza, mas quando estas comunidades já existem porque as pessoas as construiram e investiram nelas, é preciso discutir qualquer politica com os moradores. Eles devem ser consultados sobre quaisquer soluções. E quanto mais estabelecida uma comunidade e mais moradores acharem essa comunidade funcional e útil para eles, mais temos que pensar em como podemos integrar essa comunidade à cidade.

Outra coisa que aprendemos é que, por essas comunidades se desenvolverem por conta própria com pouco envolvimento externo, precisamos perguntar: quem deve tomar as decisões nessas comunidades? Será que o governo realmente tem o direito de chegar e impor políticas de cima para baixo em uma comunidade que existe há décadas, que desenvolveu seu próprio modo de funcionamento e sua forma de chegar a soluções?

A ComCat está tentando dar destaque a esse tipo de lição e buscando abrir a mente das pessoas para outras possibilidades de abordagens. Ao mesmo tempo, as favelas do Rio são, provavelmente, as comunidades urbanas mais estigmatizadas em todo o mundo, por isso é ainda mais simbólico e emblemático se essas comunidades forem utilizadas como plataforma de lançamento para essa discussão.

Guernica: A informalidade se tornou uma temática para outras atividades urbanas, das lojas pop-up e outros tipos de ocupação temporária de espaços comerciais sem uso, até aspectos da economia compartilhada, como o Uber e Airbnb. Estou curiosa a respeito das ligações entre esse tipo de informalidade, que cada vez mais parece que chegou para ficar, e a informalidade sobre a qual estamos falando em relação às favelas. Elas estão conectadas? Como elas poderiam trabalhar em conjunto na cidade do futuro?

Theresa Williamson: Eu acredito que há, absolutamente, uma relação. É engraçado, não é? Quando um negócio aplica um princípio que essas comunidades vêm usando por gerações e pelo qual são criminalizadas, é considerado criativo, empreendedor e “de ponta”. Há uma espécie de contradição frustrante nisso. Aqui no Rio, no Centro, o mesmo prefeito que tem tirado as pessoas das favelas concedeu direitos a uma fábrica abandonada que havia sido ocupada por artistas, na mesma área em que estavam removendo pessoas, no Porto! Então, quando a informalidade é permitida e quando não é? Não é permitido quando grupos tradicionalmente marginalizados a adotam porque não é conveniente tê-los por perto?

Mas ao mesmo tempo, eu mesma, como planejadora urbana e como alguém que usa e valoriza esses diferentes serviços, penso que é mais construtivo imaginar que esses exemplos reforçam o valor da informalidade. É isso que as favelas nos ensinam, na maneira como produzem soluções criativas e comunitárias para desafios conforme eles surgem, como uma arquitetura na qual as pessoas desenvolvem suas casas de acordo com suas necessidades. Então, em vez de construir uma casa grande com espaços desnecessários, você constrói um cômodo quando seu bebê nasce, depois você constrói outro andar quando suas crianças crescem, você se muda para o andar de cima quando perde um emprego e abre um negócio no andar de baixo… As favelas têm esse tipo de dinamismo.

As vezes eu ouço pessoas compararem favelas a guetos, como as moradias públicas nos EUA, mas na verdade é o contrário. As moradias públicas são o tipo de habitação mais regulamentadas no mundo, enquanto as favelas são as menos regulamentadas. São duas abordagens muito diferentes de habitação para pessoas de baixa renda, e o que distingue as favelas é a sua informalidade—a habilidade das pessoas de responderem às suas necessidades com quaisquer recursos que tenham disponíveis. Além do mais, elas são de uso múltiplo, com lojas nas esquinas ou nos andares térreos das casas, de forma que as pessoas interajam entre si; as construções são de poucos andares, em alta densidade, então não há pessoas em apartamentos isolados. Tudo isso incentiva um nível alto de inovação e trocas, e produz ideias altamente sociais e criativas. Essas são coisas positivas sobre as favelas que vêm com a informalidade dessas comunidades, das quais deveríamos estar aprendendo enquanto desenhamos cidades, habitações e zonas urbanas.

O que torna uma cidade empolgante é a espontaneidade, e a espontaneidade vem da informalidade.

Serviços como Airbnb e Uber são completamente estruturados, experiências seguras, então você perde alguns elementos de risco que estão associados à informalidade plena. A ComCat recebeu planejadores urbanos da Europa, que vieram trabalhar conosco, que estavam preocupados com o fato de as cidades na Europa estarem tão planejadas agora que teriam perdido sua alma e deixado de ser divertidas—e é verdade, o que torna uma cidade empolgante é a espontaneidade, e a espontaneidade vem da informalidade. Uber e Airbnb oferecem algumas das qualidades da informalidade em termos de dar às pessoas acesso a novas experiências e interações imprevisíveis, então você tem um senso de espontaneidade, a oportunidade do desconhecido, mas, na verdade, os serviços são formais. “Informalidade planejada”, eu diria.

Onde conseguimos encontrar a justaposição entre formal e informal? Onde conseguimos levar o informal de maneira segura e útil para o ambiente urbano? Eu acho que é nesse tipo de questionamento que estão muitas das soluções para as cidades no futuro. Os planejadores deveriam observar o que acontece naturalmente no espaço. Nosso trabalho, como planejadores urbanos, não é o de substituir o informal, é de aprender com ele e adicionar a isso, e essa é a abordagem da ComCat com respeito ao nosso trabalho nas favelas. Como podemos pegar as qualidades que existem nessas comunidades e expandir esses pontos positivos de forma a nos manter fieis à natureza da comunidade, enquanto lidando com os desafios de maneiras altamente participativas, em que os moradores tenham um senso de domínio e respeito pelo processo? Quando detectamos qualidades que vêm da informalidade, nosso trabalho é o de expandir essas qualidades, de fortalecê-las e investir nelas, em vez de passar por cima delas.

Eu estudei planejamento participativo, mas acho que as favelas me ensinaram que, na verdade, devemos visar ao planejamento instigado pela própria comunidade—de forma que não seja o governo a chegar e colocar os interesses sobre a mesa, mas que a verdadeira comunidade exponha suas demandas e faça com que o governo vá ao encontro delas. O trabalho dos planejadores deveria ser o de ouvir as comunidades, observa-las, dar apoio a elas em seu desenvolvimento e então trazer os recursos públicos. Isso é verdade principalmente quando o governo não tem tradicionalmente estado presente, como em grande parte do mundo em desenvolvimento, quando você está construindo em um contexto de recursos escassos e você espera que o povo tome a frente para sustentar o espaço de alguma forma. No Rio, com frequência, ou os próprios moradores mantêm a estrutura das favelas ou ninguém o faz. Então, se você espera que os cidadãos mantenham alguma coisa, é melhor que você os tenha altamente envolvidos no processo!

Guernica: Em que outros tipos de cidades ou ambientes você estava trabalhando antes de fundar a ComCat?

Theresa Williamson: Eu tive muita sorte de viajar muito enquanto crescia. Meus pais faziam trabalhos internacionais e eu viajei por grande parte da Europa e por todo o Brasil nas férias durante minha infância e adolescência, seguido por um semestre no mar, visitando a América do Sul, África e Ásia, e um semestre em Madagascar na faculdade. Meus anos de universidade foram na Filadélfia, com verões em Belo Horizonte, seguidos por um trabalho em Curitiba. Eu trabalhei brevemente em Washington, DC, Filadélfia, Belo Horizonte e Curitiba ao longo desses anos, mas não como urbanista—eu trabalhei em uma organização sem fins lucrativos em Washington em economia sustentável e em outra voltada para os direitos das crianças, para o Ouvidor do Paraná, e para o Departamento de Reciclagem da Filadélfia. Mas eu penso no meu trabalho como tendo começado quando eu tinha 14 anos, quando me tornei co-líder de uma coalizão estudantil ambiental em Washington, DC, encabeçando diversas iniciativas organizacionais, incluindo uma participação na Eco92, no Rio, em nome do grupo.

Foi minha graduação na faculdade, antropologia biológica, que me fez ir a Madagascar para estudar lêmures, e que me levou a trocar minha atuação para urbanismo. Eu percebi que, para provocar um impacto real, eu precisaria entender profundamente um lugar e mergulhar nele, que o Brasil era onde eu poderia ser mais útil, e que a proteção da vida selvagem e do meio ambiente só irá acontecer quando as pessoas tiverem suas necessidades básicas atendidas. Depois daquele semestre, quando descobri o campo do urbanismo em um curso que estava frequentando, eu me apaixonei por seu foco em soluções e comunidades e em melhorar o bem-estar das pessoas. Considerando que cerca de 80% do Brasil já era urbano, eu decidi que era a área para mim. Eu me inscrevi e entrei para o doutorado um ano depois.

Na Universidade da Pensilvânia, tive formação na linha mais progressista de planejamento urbano americano, que é bastante focado no desenvolvimento baseado nas comunidades, no “direito à cidade”, na participação pública e em trazer diferentes pessoas para participar. Meu foco era no planejamento participativo e no desenvolvimento comunitário.

Guernica: Que tipos de coisas você experienciou lá? Como a experiência influenciou na sua prática como urbanista?

Theresa Williamson: Eu pude assistir a aulas conduzidas por mobilizadores comunitários que me ensinaram a história das táticas usadas por comunidades em cidades dos EUA, direito ambiental, economia de bem-estar social e planejamento de transportes com o engenheiro Vukan Vuchic, que é bastante conhecido por suas pesquisas e publicações sobre transporte sustentável. Tivemos professores visitantes como Peter Newman, um urbanista com foco em cidades sustentáveis da Austrália, que esclareceu muito alguns dos conceitos básicos que distinguem cidades vibrantes das sem vida. Também aprendi por meio de meus colegas da universidade. Por exemplo, Dan Campo, um amigo meu, é um nova-iorquino que fez seu doutorado em urbanismo ao mesmo tempo que eu e sua tese se tornou o famoso livro Parque Acidental. Ele pesquisou um parque em Brooklyn que havia sido abandonado por anos, até que a vizinhança tomou a frente e ele se tornou um parque urbano maravilhoso, porque todos tomaram posse dele. As pessoas construíram uma área para skate, artistas iam ao local e montavam exibições temporárias, famílias faziam piqueniques—todos ocupavam o espaço com diferentes atividades. A conclusão de Dan foi que urbanistas devem observar o que acontece informalmente, fortalecer os sucessos e implementar seus exemplos em outros locais, e eu cheguei à mesma conclusão através do meu trabalho.
Porque as favelas produzem cultura organicamente, de alguma maneira essa cultura não é vista como algo que pertença a elas.

Guernica: Em uma palestra recente no Kalamazoo College, você descreveu a forma em que uma certa “estética da favela”—colorida, com casas e móveis improvisados; com graffiti e murais; roupas de dança e moda associadas ao funk—está começando a se tornar popular na arquitetura e em marcas. Você mencionou que as classes mais altas no Rio estão horrorizadas com a estetização das favelas.

Theresa Williamson: Por um lado, a ideia do “favela chic” é bastante perturbadora, porque faz pouco caso de uma condição extremamente difícil. Aqui no Rio, há crianças endinheiradas fazendo festas com o tema “funk de favela”, em que deixam a casa parecendo uma favela, tocam música funk… Dentro de um condomínio fechado!

Pessoas nas favelas estão sendo marginalizadas por serem das favelas, enquanto pessoas que adotam o “favela chic” estão, na verdade, valorizando algo que vem das favelas—e é aqui que as coisas se complicam, porque acredito que as pessoas deveriam valorizar essas coisas acerca das favelas. Eu realmente acho que há um valor estético nas favelas. Eu realmente acho que há um valor no funk e na vibração cultural das favelas. O que me incomoda é que as pessoas estão valorizando as favelas sem admitir isso! E aí? Essas comunidades têm qualidades ou não? E se as favelas contribuem com essas qualidades para o mundo, então o que ganham em troca?

Eu não tenho uma solução, mas vamos admitir que estamos valorizando essas comunidades. Vamos admitir que elas são incubadoras culturais, que há qualidades ali, que há algo que todos podemos aprender com elas. Isso em primeiro lugar. Em segundo lugar: Como podemos assegurar que elas estejam se beneficiando disso, que estejam ganhando algum retorno sobre o valor que produzem? Não se trata necessariamente de dinheiro, é muito mais a ideia de que haja uma certa responsabilidade por parte de qualquer um que esteja lucrando ou se beneficiando da estética da favela, em reconhecer que há qualidades nas favelas, em admitir isso publicamente, e não negar isso, e, então, que se encontre uma forma daquele valor retornar à comunidade—que se dialogue com a comunidade e se descubra uma maneira de dar esse retorno.

Isso também está relacionado ao debate sobre informalidade. Porque as favelas produzem cultura organicamente, de alguma maneira essa cultura não é vista como algo que pertença a elas, porque elas não têm a pretensão de produzir uma cultura para ser vendida. As favelas são estigmatizadas ao redor do mundo, há cem anos de ausência de políticas públicas, ocorrem remoções, maus tratos e brutalidade policial—extrair algo de sua cultura sem retornar qualquer valor às comunidades é só outro nível de exploração.

Guernica: Você se refere às favelas como o “estoque de habitação acessível do Rio”, ressignificando o conceito de favelas como bairros negligenciados para soluções habitacionais a preços acessíveis. Ao mesmo tempo, eu me pergunto por que habitações acessíveis deveriam demandar tanto daqueles que as precisam—seus próprios materiais e trabalho manual, bem como uma luta recorrente por posse e legitimidade. Como, na sua opinião, podemos criar um futuro urbano no qual não precisaremos de habitações acessíveis, porque o abrigo é garantido e não precisa ser “bancado”?

Theresa Williamson: Quando reformulamos a forma de pensar sobre as favelas do Rio para que percebemos elas como nosso estoque de habitação a preços acessíveis, não estamos sugerindo que essa seja a solução para o problema de habitação a custos acessíveis ao redor do mundo, estamos apenas dizendo que essa abaou por ser a solução no Rio.

Alguns anos atrás eu estive em Londres, com ativistas de lá observando o desenvolvimento para os Jogos Olímpicos lá, conversando com pessoas que foram afetadas pelas mudanças na cidade. Eu me encontrei com uma pessoa da secretaria de habitação da Cidade de Londres e pude ouvir sobre como Londres lida com habitações acessíveis—com fundos de posse coletiva, habitações públicas, alugueis sociais. Ela disse que 24 por cento dos londrinos recebem aluguel social, sem contar com os que moram em habitações públicas ou se beneficiam de outras políticas. E me ocorreu que essa é a mesma porcentagem de pessoas no Rio que vivem em favelas. Eu comecei a pesquisar e, em cada cidade que observamos, 20 a 30 por cento da população não pode bancar o custo de moradia à preço de mercado, o que faz muito sentido, porque o mercado não constrói para essas pessoas. Então, toda cidade precisa de um estoque habitacional acessível, e as favelas ofereceram isso, historicamente, aqui no Rio. Não estou dizendo que as cidades devam, de forma alguma, encorajar assentamentos informais, mas, uma vez que eles estejam estabelecidos, e no momento em que os habitantes dizem “Essa comunidade tem valor para mim e eu quero ficar”, aquela comunidade precisa ser tratada de maneira diferente, ela precisa ser tratada como uma parte integral de uma cidade mais ampla que merece investimento. E aí, sim, você pode pensar nelas como bairros de moradias a preços acessíveis em que precisa haver investimento. Mas antes de chegarem a esse ponto, eu não recomendaria assentamentos informais como uma solução.

Eu acho que a solução precisa envolver uma combinação de comunidades sendo capazes de construir a si mesmas até certo ponto, misturadas com algumas das coisas que garantam a segurança — material de construção de boa qualidade, apoio técnico para a engenharia—que, nas favelas do Rio, eles basicamente obtiveram por si mesmos com o tempo.

Com respeito a ter uma solução que envolva tanto das próprias pessoas, bem, mesmo que eu não acredite que eles devam carregar esse peso, eu também acho que as qualidades dessas comunidades vêm do fato de que as pessoas investiram muito. Em situações onde favelas já existem, seguir um caminho no qual as pessoas são respeitadas, em que auxílio básico é oferecido, com a garantia de abrigo, em que habitação é vista como moradia e não investimento, onde as pessoas são dadas permissão e espaço e talvez até algum tipo de ferramenta e apoio para expandir, é um bom meio termo. Essa pode ser uma grande lição para o mundo das favelas do Rio.

G

Artigo original: https://www.guernicamag.com/interviews/opportunity-for-the-unknown/

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